14/03/2022

A Banalidade do Mal na Era das Guerras Transmitidas ao Vivo

 

    "O mal não precisa de intenção monstruosa. Ele prospera, sobretudo, na ausência de pensamento.’     Hannah Arendt


    Em fevereiro de 2022, acordamos com a guerra na tela do celular. Não como metáfora. Como fato. Vídeos de tanques cruzando a fronteira ucraniana chegavam antes mesmo do café da manhã, ao lado de memes e reels de dança. O algoritmo não distingue e isso, precisamente, é o problema.



Hannah Arendt cunhou a expressão banalidade do mal ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961. Sua tese era perturbadora: o mal radical não exige um monstro. Exige apenas alguém que tenha parado de pensar. Eichmann não odiava os judeus. Ele simplesmente cumpria ordens, processava papéis e não exercia julgamento moral algum.

    Hoje, o mecanismo é outro, mas a lógica é a mesma. Quando consumimos imagens de guerra na mesma velocidade com que consumimos publicidade, algo se rompe no aparato psíquico que nos conecta ao sofrimento alheio. A filósofa Susan Sontag alertou: a fotografia de atrocidades pode gerar compaixão, mas o excesso produz anestesia.

    O que antes chocava, hoje rola o feed. Do ponto de vista jurídico e ético, isso tem consequências sérias. Uma sociedade que não sustenta o olhar diante do sofrimento concreto do outro dificilmente construirá mecanismos efetivos de responsabilização. O Direito Internacional Humanitário existe para nomear o inominável. Mas normas dependem de consciências ativas para que não sejam apenas letras mortas.

    A guerra na Ucrânia nos colocou diante de um paradoxo: nunca vimos tanto e nunca estivemos tão perto de não ver nada. A saturação visual pode ser uma nova forma de cumplicidade silenciosa, tão banal quanto a de Eichmann, mas distribuída em bilhões de telas. Pensar é um ato de resistência, sempre foi.

Ewerton Ferreira Madeira, MADEIRA,E.F.

    Referências:

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém. Companhia das Letras, 1999

SONTAG, S. Diante da dor dos outros. Companhia das Letras, 2003

Nenhum comentário:

Postar um comentário