"O
mal não precisa de intenção monstruosa. Ele prospera, sobretudo, na ausência de
pensamento.’ Hannah
Arendt
Em
fevereiro de 2022, acordamos com a guerra na tela do celular. Não como
metáfora. Como fato. Vídeos de tanques cruzando a fronteira ucraniana chegavam
antes mesmo do café da manhã, ao lado de memes e reels de dança. O algoritmo
não distingue e isso, precisamente, é o problema.
Hannah Arendt cunhou a expressão banalidade do mal ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961. Sua tese era perturbadora: o mal radical não exige um monstro. Exige apenas alguém que tenha parado de pensar. Eichmann não odiava os judeus. Ele simplesmente cumpria ordens, processava papéis e não exercia julgamento moral algum.
Hoje,
o mecanismo é outro, mas a lógica é a mesma. Quando consumimos imagens de
guerra na mesma velocidade com que consumimos publicidade, algo se rompe no
aparato psíquico que nos conecta ao sofrimento alheio. A filósofa Susan Sontag
alertou: a fotografia de atrocidades pode gerar compaixão, mas o excesso produz
anestesia.
O
que antes chocava, hoje rola o feed. Do ponto de vista jurídico e ético, isso
tem consequências sérias. Uma sociedade que não sustenta o olhar diante do
sofrimento concreto do outro dificilmente construirá mecanismos efetivos de
responsabilização. O Direito Internacional Humanitário existe para nomear o
inominável. Mas normas dependem de consciências ativas para que não sejam
apenas letras mortas.
A
guerra na Ucrânia nos colocou diante de um paradoxo: nunca vimos tanto e nunca
estivemos tão perto de não ver nada. A saturação visual pode ser uma nova forma
de cumplicidade silenciosa, tão banal quanto a de Eichmann, mas distribuída em
bilhões de telas. Pensar é um ato de resistência, sempre foi.
Ewerton Ferreira Madeira, MADEIRA,E.F.
Referências:
ARENDT,
H. Eichmann em Jerusalém. Companhia das Letras, 1999
SONTAG,
S. Diante da dor dos outros. Companhia das Letras, 2003

Nenhum comentário:
Postar um comentário