Havia algo de estranho naquele
período. As pessoas morriam e não havia velório. Famílias separadas por vidros
de UTI, despedidas por videochamada, corpos enterrados sem abraço. A pandemia
não apenas matou, ela sequestrou o ritual.
E o ritual importa. Mais do que
conforto emocional, ele é o dispositivo simbólico pelo qual o sujeito organiza
a perda. Sem ele, o luto fica suspenso, como uma frase que não termina.
Quando a Morte Deixou de Ser Íntima
O filósofo Martin Heidegger dizia que o Sein-zum-Tode, o "ser-para-a-morte", é a condição mais própria do existir humano. Não como morbidez, mas como clareza. Reconhecer que somos finitos é o que nos empurra a viver com autenticidade, a fazer escolhas que realmente nos pertencem.
A pandemia, paradoxalmente, devolveu à humanidade essa consciência. Mas de uma forma brutal, sem tempo para o processo. Freud já havia apontado, em "Luto e Melancolia" (1917), que o luto saudável é um trabalho, não uma fraqueza. O sujeito precisa de tempo e de espaço psíquico para desinvestir o objeto perdido e retomar a vida. Quando esse espaço é negado, o que deveria ser luto se transforma em melancolia: uma dor que não encontra endereço.
O que o Direito Tem a Ver com Isso?
Mais do que parece. O Direito Sucessório, que muitos tratam como burocracia fria, é na verdade um campo profundamente humano. Ele trata de três perguntas essenciais:
- O que você quer deixar?
- Para quem?
- Com qual intenção?
A ausência de testamento, por exemplo, não é apenas um vazio jurídico. É, muitas vezes, a expressão de uma recusa em encarar a própria morte. Uma negação que, depois, o judiciário resolve, às vezes destruindo famílias.
Heidegger chamaria isso de viver na impropriedade, no piloto automático do "a gente vê depois". O problema é que depois, às vezes, não chega.
Planejar o Legado é um Ato de Amor
Após 2022, algo mudou. Escritórios de advocacia que trabalham com planejamento sucessório notaram um aumento nas consultas. Pessoas que nunca tinham pensado em testamento começaram a perguntar. A morte, que estava escondida nos bastidores da cultura contemporânea, entrou pela sala de estar de todo mundo.
Isso
é, no fundo, uma oportunidade filosófica. Planejar o seu legado jurídico, seja
por testamento, doação em vida, holding familiar ou planejamento
previdenciário, é um ato de cuidado com quem fica. É a tradução jurídica do
amor. E
talvez essa seja a lição mais honesta que a pandemia nos deixou: a finitude não
é o oposto da vida. Ela é o que dá à vida o seu peso real.
Referências: FREUD, S. Luto e Melancolia. 1917.
In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. HEIDEGGER, M. Ser
e Tempo. Trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2005.

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