O claustro como encontro com o Real: o que Lacan e São Bruno têm em comum.
O encontro entre um monge do
século XI e um psicanalista francês do século XX parece piada de intelectual,
mas a verdade é que eles estavam olhando para o mesmo abismo.
No romance O Deserto (1924), tem uma cena que me incomoda. Luciano, um cara cansado de tudo, resolve passar uma semana num mosteiro cartuxo. Na primeira noite, o silêncio é tão violento que ele entra em pânico. Ele grita, chora, pede socorro. E ninguém vem. Os monges não são rudes, eles só não estão ali para ouvir o “eu” de ninguém em particular. Eles rezam pelo mundo, pela totalidade, pelo que sobra quando as individualidades somem.
Aí entra o Jacques Lacan. Para ele, o pânico de Luciano não era medo do escuro, era o encontro com o que ele chamava de o Real. Sabe aquela parte da vida que a gente não consegue explicar com palavras, que não cabe em nenhuma historinha que a gente conta sobre nós mesmos e que insiste em voltar sempre que o barulho do mundo baixa? Pois é. O Real é o que sobra quando o Wi-Fi cai e as redes sociais param de validar quem a gente acha que é. A técnica do vazio.
O que São Bruno fundou em 1084
foi, essencialmente, uma máquina de desmantelar o ego. Na Cartuxa não tem
espelho, não tem conversa de corredor, não tem reconhecimento. O sujeito fica
pelado diante de si mesmo.
Eu acredito que o gesto de São
Bruno ao largar uma carreira brilhante em Reims para se enfiar no mato não foi
uma fuga. Foi um êxodo. A diferença é sutil, mas fundamental:
- Fuga: você corre porque o mundo é insuportável.
- Êxodo: você sai porque o mundo é insuficiente.
Lacan diria algo parecido sobre o
fim de uma análise. Você não termina a terapia porque “se curou” ou porque
preencheu o vazio. Você termina quando aceita que o vazio faz parte do kit
básico do ser humano e para de tentar entupir esse buraco com consumo,
relacionamentos ou ideologias. O monge não resolve o silêncio; ele aprende a
morar nele.
Tem um lema cartuxo que eu acho sensacional: Stat Crux dum volvitur orbis. A cruz permanece enquanto o mundo gira. Dando um toque psicanalítico, o mosteiro funciona como um “ponto de basta”. É aquele nó que segura a corda antes de tudo virar uma bagunça sem sentido. O mundo hoje é pura velocidade, puro deslize. A gente pula de um estímulo para outro sem nunca aterrissar. O mosteiro decide, voluntariamente, ser o lugar que não se move. Para o mundo saber que está girando, alguém precisa estar parado. E agora?
Quando Luciano sai do mosteiro,
ele sente um frio na espinha. O silêncio não o converteu, mas o deslocou. E
talvez seja esse o ponto. O encontro com o que é real na gente não traz paz,
traz deslocamento.
Fica a dúvida: o que a gente faz com esse deslocamento quando volta para o trânsito, para as planilhas e para os boletos? Nem Bruno nem Lacan dão um manual de instruções. Eu suspeito que a lição seja mais simples (e mais difícil) do que parece: o barulho que a gente faz o dia todo não é só comunicação. É esquiva. É medo de encarar o que sobra quando a música para. Às vezes, o ato mais radical de rebeldia não é gritar mais alto, é simplesmente calar a boca e deixar o silêncio trabalhar um pouco.
Ewerton Ferreira Madeira, MADEIRA,E.F.
Referências
PAPÀSOGLI, G. Deus
Responde no Deserto: Bruno, o Santo da Cartuxa.
RIBEIRO, Manuel. O
Deserto. 4. ed. Lisboa: Livraria Editora Guimarães, 1924.
LACAN, Jacques. O
Seminário, Livro XX: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

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