Há uma cena que imagino com frequência. Um advogado, às onze da noite, diante de uma tela branca. O prazo é amanhã. Ele abre o ChatGPT, digita o problema jurídico e, em quarenta segundos, recebe uma peça decente, com fundamentos, jurisprudência citada e estrutura lógica. Fecha o laptop e dorme. Não estou dizendo que ele errou. Estou dizendo que algo não aconteceu.
Sertillanges, dominicano francês do início do século XX, escreveu A Vida Intelectual como um manual de espiritualidade do trabalho. No capítulo sobre o trabalho criador, ele insiste: constância, paciência e perseverança não são virtudes acessórias. São a própria condição da obra. A constância mantém-se a pé firme, a paciência suporta as dificuldades e a perseverança evita o gasto da vontade. Três coisas distintas que se sustentam mutuamente. E todas dependem de tempo, não do tempo do relógio, mas do tempo vivido, acumulado e sedimentado.
A IA não tem isso. Não porque seja burra. O problema é quase o oposto: ela é rápida demais. Entrega a forma sem ter passado pelo processo. E o processo, aquele período nebuloso em que você não sabe bem o que pensa, em que o argumento ainda está malformado, em que você escreve uma frase e a apaga três vezes, é nesse ponto que o pensamento acontece de verdade.
Lacan dizia que o sujeito se
constitui no intervalo. Na falta. No que não vem imediatamente. A produção
intelectual guarda algo dessa lógica: é no atrito com a dificuldade que o
jurista descobre o que realmente pensa sobre aquele problema, sobre aquele cliente,
sobre aquela injustiça. Quando delego isso à máquina, não libero tempo; abro
mão do encontro comigo mesmo.
Convenhamos: o boom das IAs
jurídicas chegou prometendo eficiência. E entrega. Para a parte técnica e
repetitiva do trabalho, isso é genuinamente útil. Não tenho nenhum problema em
usar uma ferramenta para encontrar precedentes do STJ sobre responsabilidade
civil. O problema está em confundir ferramenta com pensamento.
Sertillanges observa que os intelectuais que trabalham às arremetidas, por fases entrecortadas de preguiça e negligência, produzem um destino cheio de remendos, quando deveria ser preciosa tapeçaria. A IA é, em muitos casos, a arremetida mais sedutora já inventada. Você produz algo e tem a sensação de ter produzido, sem ter sustentado o esforço. E sustentação é tudo.
No Direito de Família, onde
trabalho, aprendi que a tese mais bem construída muitas vezes perde para o
advogado que entendeu o que estava em jogo, emocionalmente, naquele processo.
Essa compreensão não se terceiriza. Ela exige que eu tenha ficado com o
problema, que eu tenha dormido com aquela questão, revisado minha hipótese e
abandonado uma linha de argumento porque ela não se sustentava eticamente,
mesmo que fosse formalmente impecável.
Nenhuma IA faz isso. Não
porque não possa processar os dados. É porque ela não tem nada a perder naquele
caso. Não há implicação subjetiva. E sem implicação, não há pensamento. Há, no
máximo, cálculo.
Sertillanges cita Edison: "nunca
olhes para o relógio". O ponto não é romantizar a obsessão pelo trabalho.
É que a atenção sustentada, a capacidade de permanecer com uma ideia até que
ela ceda alguma coisa, tem valor intrínseco. É o que distingue o técnico do
pensador.
O advogado que usa IA para tudo estará, progressivamente, se tornando um operador de interface. Competente, talvez. Mas cada vez mais distante do que o Direito, em suas melhores versões, exige: julgamento. E julgamento se cultiva. É lento. É trabalhoso. Não tem prompt. Então, o que resta ao advogado pensador? Talvez a pergunta mais honesta seja outra: o que ele está disposto a sustentar?
Referências
LACAN, J. O Seminário, livro 11: os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
SERTILLANGES, A. G. A vida
intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos. Tradução de Clélia
Pinto do Couto. São Paulo: É Realizações, 2010.
MADEIRA, E. F. O que a máquina não
sustenta. Jusbrasil, 2025.

Nenhum comentário:
Postar um comentário