Tem uma cena que volta à minha cabeça com alguma frequência. Uma família diante de um balcão de funerária, acabou de perder alguém, e precisa, naquele exato momento de colapso, negociar preço, assinar contrato, escolher urna. O luto ainda nem começou e já é exigido que a razão funcione a pleno vapor. É nesse intervalo, entre a morte e a terra, que o Direito Funerário existe. E é justamente aí que ele mais falha.
O sepultamento no Brasil tem natureza jurídica híbrida. Não é simples contrato de consumo, embora o Código de Defesa do Consumidor incida. Não é apenas concessão administrativa, embora os cemitérios públicos operem sob esse regime. É um nó que amarra direito administrativo, civil e constitucional. E, eu diria, uma dimensão que a lei mal consegue nomear: o direito ao luto.
Existe um conceito que vem do direito romano e que diz muito sobre isso. O jus sepulchri, o conjunto de direitos que o titular da sepultura possui sobre o sepulcro, não é apenas uma categoria técnica. É o reconhecimento de que a relação entre os vivos e seus mortos cria vínculos juridicamente protegidos. O jus sepulchri é impenhorável no direito brasileiro, sendo que somente o sepulcro pode ser penhorável por dívida resultante de sua própria aquisição ou construção. Dito de outro modo: a morte tem proteção que o credor não pode alcançar.






