Esse deslocamento de foco é significativo. Durante anos, o debate sobre IA jurídica orbitou em torno da responsabilização das plataformas por conteúdo de terceiros. Mas as legislações que começaram a amadurecer em 2024, a exemplo do AI Act europeu e das primeiras regulações administrativas brasileiras, agora chegam a uma fase diferente: a das indenizações práticas. O dano já foi causado. Alguém precisa responder.
Onde o Direito encontra o inconsciente. Análise de conflitos humanos a partir da lei, da Psicanálise e da Filosofia — por MADEIRA,E.F.
07/05/2026
Quem paga quando a máquina erra?
27/04/2026
O fim do "pet-objeto" nas separações.
21/04/2026
O padre que lia livros proibidos nas montanhas de Minas
Escrever sobre Ouro Preto é, de certa forma, tentar descrever um fantasma que insiste em não ir embora. Diferente de outras cidades históricas que parecem museus sob uma redoma de vidro, a antiga Vila Rica ainda pulsa com uma energia estranha, quase pesada, entre o cheiro de café passado e o suor de quem encara aquelas ladeiras absurdas.
Eu acredito que o segredo do lugar não está no brilho do ouro que sobrou nas igrejas de Aleijadinho, mas no que a cidade esconde. Vila Rica foi o centro de um Brasil que estava sendo inventado na marra, à base de picareta e um desejo de liberdade que, convenhamos, era meio desorganizado. Caminhar por ali hoje é entender que o país nasceu de uma mistura de ambição desenfreada e uma religiosidade que tentava, sem muito sucesso, compensar os pecados do lucro.
10/03/2026
Ganhar o processo não resolve o conflito
Não porque a Justiça fosse lenta, mas porque, a cada avanço no processo, havia uma nova batalha. Uma liminar. Um recurso. Uma denúncia. O processo terminou. Ele ganhou e o filho continuou distante, porque o que estava em jogo nunca tinha sido apenas a guarda.
04/02/2026
Psicanálise e Direito de Família: A Função Simbólica da Lei nos Conflitos Familiares Contemporâneos
05/01/2026
Apagar uma igreja é apagar uma história: década de 1930 a 2026, o que o Direito não impediu?
A mesma estrutura que autorizou a demolição em Guaratinguetá pode assistir ao mesmo destino em Taubaté.
Uma igreja antiga, a tinta já cansada, o sino que não toca há algum tempo. Alguém passa na calçada e olha rápido, como quem não reconhece mais o que está ali. Dentro, talvez ainda exista cheiro de madeira, de vela, de promessa antiga. Do lado de fora, já começaram a chamar de problema.
Eu penso nisso quando volto na década de 1930. Em Guaratinguetá, durante
os anos da década, uma igreja construída por mãos escravizadas foi ao chão. Não
por guerra, não por ruína inevitável. Por autorização eclesiástica. Um ato
formal, quase limpo, que retirou da paisagem a evidência de que aquela
comunidade tinha existido ali de forma organizada, visível, concreta.
A Irmandade do Rosário dos Homens Pretos não era só devoção. Era estratégia de permanência. Era o jeito possível de existir dentro de um sistema que aceitava o corpo, mas recusava a história. A igreja era mais do que templo. Era prova. Quando caiu, não caiu só a estrutura. Caiu o registro.
05/12/2025
A Advocacia Além do Prompt: O Valor do Tempo e do Pensamento.
Há uma cena que imagino com frequência. Um advogado, às onze da noite, diante de uma tela branca. O prazo é amanhã. Ele abre o ChatGPT, digita o problema jurídico e, em quarenta segundos, recebe uma peça decente, com fundamentos, jurisprudência citada e estrutura lógica. Fecha o laptop e dorme. Não estou dizendo que ele errou. Estou dizendo que algo não aconteceu.
Sertillanges, dominicano francês do início do século XX, escreveu A Vida Intelectual como um manual de espiritualidade do trabalho. No capítulo sobre o trabalho criador, ele insiste: constância, paciência e perseverança não são virtudes acessórias. São a própria condição da obra. A constância mantém-se a pé firme, a paciência suporta as dificuldades e a perseverança evita o gasto da vontade. Três coisas distintas que se sustentam mutuamente. E todas dependem de tempo, não do tempo do relógio, mas do tempo vivido, acumulado e sedimentado.
A IA não tem isso. Não porque seja burra. O problema é quase o oposto: ela é rápida demais. Entrega a forma sem ter passado pelo processo. E o processo, aquele período nebuloso em que você não sabe bem o que pensa, em que o argumento ainda está malformado, em que você escreve uma frase e a apaga três vezes, é nesse ponto que o pensamento acontece de verdade.
01/11/2025
O sepultamento não é um favor. É um direito.
Tem uma cena que volta à minha cabeça com alguma frequência. Uma família diante de um balcão de funerária, acabou de perder alguém, e precisa, naquele exato momento de colapso, negociar preço, assinar contrato, escolher urna. O luto ainda nem começou e já é exigido que a razão funcione a pleno vapor. É nesse intervalo, entre a morte e a terra, que o Direito Funerário existe. E é justamente aí que ele mais falha.
O sepultamento no Brasil tem natureza jurídica híbrida. Não é simples contrato de consumo, embora o Código de Defesa do Consumidor incida. Não é apenas concessão administrativa, embora os cemitérios públicos operem sob esse regime. É um nó que amarra direito administrativo, civil e constitucional. E, eu diria, uma dimensão que a lei mal consegue nomear: o direito ao luto.
Existe um conceito que vem do direito romano e que diz muito sobre isso. O jus sepulchri, o conjunto de direitos que o titular da sepultura possui sobre o sepulcro, não é apenas uma categoria técnica. É o reconhecimento de que a relação entre os vivos e seus mortos cria vínculos juridicamente protegidos. O jus sepulchri é impenhorável no direito brasileiro, sendo que somente o sepulcro pode ser penhorável por dívida resultante de sua própria aquisição ou construção. Dito de outro modo: a morte tem proteção que o credor não pode alcançar.
06/10/2025
O pânico do silêncio: por que um mosteiro de 1084 explica sua ansiedade melhor que o TikTok.
O claustro como encontro com o Real: o que Lacan e São Bruno têm em comum.
O encontro entre um monge do
século XI e um psicanalista francês do século XX parece piada de intelectual,
mas a verdade é que eles estavam olhando para o mesmo abismo.
No romance O Deserto (1924), tem uma cena que me incomoda. Luciano, um cara cansado de tudo, resolve passar uma semana num mosteiro cartuxo. Na primeira noite, o silêncio é tão violento que ele entra em pânico. Ele grita, chora, pede socorro. E ninguém vem. Os monges não são rudes, eles só não estão ali para ouvir o “eu” de ninguém em particular. Eles rezam pelo mundo, pela totalidade, pelo que sobra quando as individualidades somem.
Aí entra o Jacques Lacan. Para ele, o pânico de Luciano não era medo do escuro, era o encontro com o que ele chamava de o Real. Sabe aquela parte da vida que a gente não consegue explicar com palavras, que não cabe em nenhuma historinha que a gente conta sobre nós mesmos e que insiste em voltar sempre que o barulho do mundo baixa? Pois é. O Real é o que sobra quando o Wi-Fi cai e as redes sociais param de validar quem a gente acha que é. A técnica do vazio.
22/09/2025
Concausa, agravamento e fatores psicossociais na psiquiatria forense: o que todo operador do direito precisa compreender antes da perícia
Resumo
O presente estudo analisa os conceitos de concausa, agravamento e fatores psicossociais no âmbito da psiquiatria forense, com enfoque na sua relevância para a atuação jurídica em perícias envolvendo adoecimento psíquico relacionado ao trabalho. Parte-se da premissa da multicausalidade dos transtornos mentais, afastando a ideia de causalidade única entre atividade laboral e doença. Examina-se a classificação de Schilling, distinguindo as hipóteses em que o trabalho atua como causa, concausa ou fator de agravamento, bem como suas implicações jurídicas, especialmente no que se refere à responsabilização civil e à quantificação da indenização. Discute-se o papel do perito médico e do magistrado na delimitação da contribuição causal, além da importância da análise dos fatores psicossociais extralaborais, capazes de excluir ou reduzir o nexo causal. Conclui-se que a compreensão técnica desses elementos é essencial para uma adequada interpretação da prova pericial e para decisões judiciais mais coerentes.
Palavras-chave: Concausa. Psiquiatria forense. Nexo causal. Direito do trabalho. Fatores psicossociais. Perícia médica.
29/08/2025
O Direito de Família está "enxugando gelo"? Por que a Lei sozinha não encerra o conflito.
Muitas vezes, uma briga por pensão alimentícia ou uma disputa de guarda não é sobre dinheiro ou dias da semana. É sobre luto não elaborado.
Quem atua na área de família sabe: o processo judicial costuma ser apenas a "ponta do iceberg" de conflitos muito mais profundos e, por vezes, invisíveis aos olhos da lei fria. É nesse cenário que a interlocução entre o Direito e a Psicanálise deixa de ser um luxo acadêmico para se tornar uma necessidade prática.
O "Sujeito do Inconsciente" na Audiência
01/07/2025
Por que as brigas de família não terminam na sentença? A Psicanálise explica o Direito.
O Direito de Família é, sem dúvida, o campo jurídico onde a técnica e a emoção mais se colidem. Quem atua na área sabe: muitas vezes, uma ação de alimentos ou uma disputa de guarda não é apenas sobre valores ou dias de visita, mas sobre ressentimentos, lutos não elaborados e o que a Psicanálise chama de "repetição".
O Sujeito Racional vs. O Sujeito do Inconsciente
No Direito, aprendemos que o sujeito é um ser racional, capaz de tomar decisões lógicas. Mas, na prática do gabinete ou da audiência, lidamos com o "sujeito do inconsciente". Como ensinou Sigmund Freud e, posteriormente, Jacques Lacan, nossas ações são frequentemente movidas por desejos e traumas que nem sempre conseguimos verbalizar. No Judiciário, isso se traduz em:
31/01/2023
Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), um número só e o que muda com isso
Existe algo de quase filosófico na ideia de que uma pessoa, com toda a sua complexidade, possa ser identificada por onze dígitos. Não é uma crítica. É uma observação sobre como o Estado organiza a existência e como, às vezes, simplificar é um ato de respeito.
A Lei 14.534/2023 fez exatamente
isso: transformou o CPF no número de identificação único do cidadão brasileiro.
Passaporte, carteira de trabalho, título de eleitor, CNH. Tudo converge para um
só registro. Acabou a exigência de apresentar documentos diferentes para
serviços que, no fundo, precisavam confirmar a mesma coisa: que você é você.
01/11/2022
O Direito ao Luto e a Filosofia da Finitude
Havia algo de estranho naquele
período. As pessoas morriam e não havia velório. Famílias separadas por vidros
de UTI, despedidas por videochamada, corpos enterrados sem abraço. A pandemia
não apenas matou, ela sequestrou o ritual.
E o ritual importa. Mais do que
conforto emocional, ele é o dispositivo simbólico pelo qual o sujeito organiza
a perda. Sem ele, o luto fica suspenso, como uma frase que não termina.
Quando a Morte Deixou de Ser Íntima
O filósofo Martin Heidegger dizia que o Sein-zum-Tode, o "ser-para-a-morte", é a condição mais própria do existir humano. Não como morbidez, mas como clareza. Reconhecer que somos finitos é o que nos empurra a viver com autenticidade, a fazer escolhas que realmente nos pertencem.
14/03/2022
A Banalidade do Mal na Era das Guerras Transmitidas ao Vivo
"O
mal não precisa de intenção monstruosa. Ele prospera, sobretudo, na ausência de
pensamento.’ Hannah
Arendt
Em
fevereiro de 2022, acordamos com a guerra na tela do celular. Não como
metáfora. Como fato. Vídeos de tanques cruzando a fronteira ucraniana chegavam
antes mesmo do café da manhã, ao lado de memes e reels de dança. O algoritmo
não distingue e isso, precisamente, é o problema.
Hannah Arendt cunhou a expressão banalidade do mal ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961. Sua tese era perturbadora: o mal radical não exige um monstro. Exige apenas alguém que tenha parado de pensar. Eichmann não odiava os judeus. Ele simplesmente cumpria ordens, processava papéis e não exercia julgamento moral algum.















